Como tudo começou

Projeto Central - Como tudo começou

Em 1977, instada a escrever um artigo sobre as suas pesquisas e qual seria o lugar ideal para se escavar no Brasil, a professora Maria Beltrão respondeu que o local era o médio e baixo São Francisco, especialmente a planície calcária, onde as condições e deposições de sedimentos do Período Quaternário estavam marcados e havia alternâncias entre úmidos e secos. Nos EUA, correspondiam aos períodos de glaciações e interglaciações. No Brasil, no entanto, não existia esse fenômeno, tendo, então, que se apoiar na realidade brasileira. E na planície calcária essa realidade estaria mais bem marcada.

Cinco anos depois, em 1982, uma prima sua que tinha se casado e era viúva de um rapaz de Central, Bahia, a procurou em Brasília com uma caixa de ossos daquela região. Sua prima afirmou que, naquela planície calcária, havia muitas depressões preenchidas de ossos de animais pleistocênicos. Entre os ossos que ela havia trazido na caixa, havia uma cartilagem do gliptodonte, um tatu pleistocênico extinto, perfeitamente preservada. A professora Beltrão decidiu, em vista das evidências, que iria criar um projeto.

Por que o Projeto Central tem esse nome? Não é porque Central seja o centro do mundo arqueológico, mas porque o município de Central, à época, se encontrava localizado no centro das caatingas regionais, hoje praticamente extintas.

Projeto Central - Como tudo começouAssim, foi como tudo começou. A professora Maria Beltrão chamou o filho da sua prima, que fazia faculdade de biologia, e pediu-lhe que fosse com os caçadores procurar um desenho de algum animal que eles não reconhecessem. Ele voltou dizendo que no Riacho Largo havia uma cena de um animal confrontando homens e os caçadores não sabiam que animal era aquele. Depois desse relato, a professora foi até lá e identificou que era a pintura de um toxodonte. Resolveu então chamar o seu antigo professor, que a havia ensinado muito sobre geomorfologia, para ir até lá ajudá-la nessa pesquisa. O professor também identificou o animal como sendo o toxodonte. O achado ensejou a publicação de um trabalho mostrando a existência de animais pleistocênicos representados na região. A partir daí foram descobertos dois gêneros distintos de cavalos, ursos pintados, três gêneros de tatus, a paleolhama, a preguiça gigante e também a preguiça pequena pleistocênica.

Cavalo fóssil - Projeto Central

Cavalo fóssil

A professora Maria Beltrão começou a olhar outras pinturas e descobriu uma série de pinturas geométricas com motivações astronômicas. Naquele momento Maria Beltrão começou a identificar a Via Láctea de ponta a ponta na Toca dos Búzios, a Via Láctea ao amanhecer, sistema de contagem, cometas representados e aparentemente o maior cometa representado no mundo de 1,62m. Foram chamados os astrônomos Jacques Danon, Ronaldo Mourão e Márcio Campos – todos eles confirmaram as descobertas da professora e decifraram outras. E Beltrão observou que em geral o sol está sempre representado onde bate o sol e o cometa e as estrelas na parte escura das grutas.

Toca dos Búzios - Via Láctea em posição vertical

Toca dos Búzios – Via Láctea em posição vertical

Depois de se dedicar as pinturas rupestres, a professora observou que a Toca da Esperança era coberta pela marga e que ela não era o chão da gruta, sendo apenas um tipo de rocha sedimentar. A professora decidiu escavar nesse local.

Com o início dos trabalhos começaram a surgir ossos, surgiram inúmeros ossos picados de animais extintos pleistocênicos. Os ossos poderiam ter sido picados pelo tigre de dente de sabre; a fratura espiral, por exemplo, pode ser feita tanto pelo animal como pelo homem. O que ela pegou da Toca do Aragão – que foi de onde saiu os ossos que sua prima havia levado – foram 3500 ossos, todos grandes e não havia um padrão de lascamento.

Imagem do Tigre do Dente de Sabre

Imagem do Tigre do Dente de Sabre

Já na Toca da Esperança, os ossos tinham um padrão, com 8 cm, com exceção da preguiça gigante, cujos ossos eram maiores, muitos eram cortados na epífise junto a diáfise e dali era tirado o tutano. Assim, a professora Maria Beltrão foi armando informações até criar o cotidiano do homem naquela gruta, que foi datada de no mínimo 300 mil de anos. Um grupo de estudiosos franceses ajudou a datar, mas não acreditaram que fosse uma gruta de ocupação humana.

O arqueólogo francês Henry De Lumley enviou uma missão à Bahia. A equipe composta por Marie-Antoinette de Lumley, Jacques La Berry e um professor americano encarava a descoberta com desconfiança. Marie-Antoinette de Lumley, no último dia de escavação da equipe, encontrou um Chopper, artefato que confirma que um ancestral do homem moderno viveu ali. Só a partir daí que os franceses acreditaram que a Toca da Esperança era um sítio arqueológico. O trabalho foi publicado na França e no Brasil.

Atualmente, Maria Beltrão não mede seus esforços para achar parte esqueleto do homem fóssil na Toca da Esperança.

Maria BeltrãoComo Tudo Começou

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